Primeiro Dia de 25 Anos
Cheguei
cedo, muito antes dos 08:00 ao Hospital, tinha ido de autocarro e tive de
apanhar dois transportes para chegar. Estava frio, pelo menos eu tremia de
frio, ia ser um dia cinzento a adivinhar o Outono. Dirigi-me aos vestuários que
se encontravam no outro estremo do Hospital. Como ainda não tinha a farda do
hospital, vesti a farda de aluna, uma bata branca de apertar à frente, não
muito diferente da farda da instituição que agora me acolhia. Os sapatos eram
também os do curso (foram caríssimos e foram bem aproveitados), retirei os
brincos, prendi o cabelo.
Faltavam
15 minutos para a passagem de turno e quando saí dos vestuários, chegavam
outras colegas de todos os serviços para fazer o mesmo ritual que eu tinha
terminado. Devagar caminhei pelo longo corredor e lembro o som dos passos no
chão frio de mármore. Ao longe o choro de um bebé fez-me estremecer.
Aos poucos ía me apercebendo de outros sons que
me iriam acompanhar durante muitos anos.
Respirei fundo e numa oração pedi a Deus que me
ajudasse a não errar.
Cruzei-me com algumas
pessoas que me cumprimentaram com simpatia, e eu senti que já pertencia àquela
família.
Desci os degraus que me conduziram ao serviço
de Medicina do Hospital Pediátrico.
Abri as portas e entrei
na sala de enfermagem. As colegas que estavam a terminar o seu turno ainda
estavam ocupadas para terminar os cuidados. Entrei e sentei-me no topo do sofá,
encostada á parede, o meu bom dia não sei se o libertei ou se ficou alojado na
garganta.
Assisti à passagem de
turno e anotei tudo o que pude…
A Enfermeira Chefe
apresentou-me à equipa e depois mostrou-me o serviço. Um serviço antigo,
paredes rosa escuro, a necessitar de uma pintura nova. Cada quarto tinha 3
caminhas de ferro, já muito lascadas, com grades altas. À frente das camas uma
bancada com um lavatório, um colchão e uma banheirinha. As mães sentadas em
cadeiras, umas a olhar para os filhos, outras a tentar acalmá-los, outras a
brincar com eles.
Foi-me resumindo a história de cada criança.
Os sons…os oxímetros…os
perfusores…os gritos…o choro… As patologias eram muito mais complexas que tudo
o que eu tinha vivenciado em estágio. Entrei na sala de tratamentos onde
puncionavam um bebé, achei tudo muito doloroso, muito traumático, As
enfermeiras com o rosto fechado, concentradas nas tarefas, nos cuidados…
Enretanto fui
apresentada à minha mentora, foi a enfermeira que fez a minha integração no
serviço. É um ser de muita luz. As primeiras gargalhadas que ouvi ali foram
dela. A Enf. Graça conquistou-me pela simplicidade em que transformava tudo o
que de simples não tem nada.
Saí daquele primeiro
dia com os ouvidos surdos pela imensidão de sons que era preciso identificar e
agir de acordo com o esperado e o coração triste por ter visto um local com
tantas dores e sofrimento…
Caminhei até ao
vestuário como um fantasma…sentia-me exausta…Troquei cada peça de roupa mas no
fim olhei para dentro do cacifo e procurei onde tinha ficado a minha alma…Saí
do Hospital e vagueei pela rua até o transporte que me levava a casa, lá dentro
sentei-me num lugar vago e pela vidro da janela a paisagem ia mudando, mas eu
só revia mentalmente o rosto de cada criança… e os gritos…saí finalmente junto
a minha casa ao portão estava a minha mãe também a chegar a casa e com um beijo
apressado perguntou:
- Então como correu o
primeiro dia?
Olhei para ela, sorri a
custo e murmurei:
- Correi bem, amanhã já não vou, mas correu
bem.
Voltei todos os dias
que me estavam destinados, durante sete anos! E três anos após ainda sonhava
que voltava.
Ainda hoje, o que vivi naquele serviço, transformou-me no ser humano que hoje sou. Cresci, sofri e conheci o Amor maior de todos.

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