quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Primeiro Dia de 25Anos

 


Primeiro Dia de 25 Anos

            Cheguei cedo, muito antes dos 08:00 ao Hospital, tinha ido de autocarro e tive de apanhar dois transportes para chegar. Estava frio, pelo menos eu tremia de frio, ia ser um dia cinzento a adivinhar o Outono. Dirigi-me aos vestuários que se encontravam no outro estremo do Hospital. Como ainda não tinha a farda do hospital, vesti a farda de aluna, uma bata branca de apertar à frente, não muito diferente da farda da instituição que agora me acolhia. Os sapatos eram também os do curso (foram caríssimos e foram bem aproveitados), retirei os brincos, prendi o cabelo.

            Faltavam 15 minutos para a passagem de turno e quando saí dos vestuários, chegavam outras colegas de todos os serviços para fazer o mesmo ritual que eu tinha terminado. Devagar caminhei pelo longo corredor e lembro o som dos passos no chão frio de mármore. Ao longe o choro de um bebé fez-me estremecer.

Aos poucos ía me apercebendo de outros sons que me iriam acompanhar durante muitos anos.

Respirei fundo e numa oração pedi a Deus que me ajudasse a não errar.

Cruzei-me com algumas pessoas que me cumprimentaram com simpatia, e eu senti que já pertencia àquela família.

 Desci os degraus que me conduziram ao serviço de Medicina do Hospital Pediátrico.

Abri as portas e entrei na sala de enfermagem. As colegas que estavam a terminar o seu turno ainda estavam ocupadas para terminar os cuidados. Entrei e sentei-me no topo do sofá, encostada á parede, o meu bom dia não sei se o libertei ou se ficou alojado na garganta.

Assisti à passagem de turno e anotei tudo o que pude…

A Enfermeira Chefe apresentou-me à equipa e depois mostrou-me o serviço. Um serviço antigo, paredes rosa escuro, a necessitar de uma pintura nova. Cada quarto tinha 3 caminhas de ferro, já muito lascadas, com grades altas. À frente das camas uma bancada com um lavatório, um colchão e uma banheirinha. As mães sentadas em cadeiras, umas a olhar para os filhos, outras a tentar acalmá-los, outras a brincar com eles.

 Foi-me resumindo a história de cada criança.

Os sons…os oxímetros…os perfusores…os gritos…o choro… As patologias eram muito mais complexas que tudo o que eu tinha vivenciado em estágio. Entrei na sala de tratamentos onde puncionavam um bebé, achei tudo muito doloroso, muito traumático, As enfermeiras com o rosto fechado, concentradas nas tarefas, nos cuidados…

Enretanto fui apresentada à minha mentora, foi a enfermeira que fez a minha integração no serviço. É um ser de muita luz. As primeiras gargalhadas que ouvi ali foram dela. A Enf. Graça conquistou-me pela simplicidade em que transformava tudo o que de simples não tem nada.

Saí daquele primeiro dia com os ouvidos surdos pela imensidão de sons que era preciso identificar e agir de acordo com o esperado e o coração triste por ter visto um local com tantas dores e sofrimento…

Caminhei até ao vestuário como um fantasma…sentia-me exausta…Troquei cada peça de roupa mas no fim olhei para dentro do cacifo e procurei onde tinha ficado a minha alma…Saí do Hospital e vagueei pela rua até o transporte que me levava a casa, lá dentro sentei-me num lugar vago e pela vidro da janela a paisagem ia mudando, mas eu só revia mentalmente o rosto de cada criança… e os gritos…saí finalmente junto a minha casa ao portão estava a minha mãe também a chegar a casa e com um beijo apressado perguntou:

- Então como correu o primeiro dia?

Olhei para ela, sorri a custo e murmurei:

 - Correi bem, amanhã já não vou, mas correu bem.

Voltei todos os dias que me estavam destinados, durante sete anos! E três anos após ainda sonhava que voltava.

Ainda hoje, o que vivi naquele serviço, transformou-me no ser humano que hoje sou. Cresci, sofri e conheci o Amor maior de todos. 

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