quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Começar a exercer enfermagem, no serviço de Medicina de um Hospital Pediátrico,foi o maior desafio da minha vida. Aos 23 anos, por muita maturidade que se tenha, nunca se está preparado para o desafio diário de um serviço destes. Nos anos 90 o serviço de Medicina onde fui trabalhar abarcava crianças com doenças agudas e crónicas, desde a fase inicial aos final da evolução da doença. Era um serviço antigo, a pedir um restauro nalgumas áreas, sempre lotado. Os pais tinham apenas uma cadeira para se sentar (ás vezes um cadeirão) e por baixo da banca do lavatório um armário. As mães que ficavam no hospital, por vezes tinham vagas no "Quarto das Mães"para dormir...para descansar...para conversar quando o sono tardava porque as preocupações o assutavam... Um quarto minúsculo com beliches. Mal ventilado. E com um telefone que não dava descanso, porque os meninos chamavam pela mãe, ou tinha havido uma complicação, ou um milagre esperado sobre a forma de transpplante, ou...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Primeiro Dia de 25Anos

 


Primeiro Dia de 25 Anos

            Cheguei cedo, muito antes dos 08:00 ao Hospital, tinha ido de autocarro e tive de apanhar dois transportes para chegar. Estava frio, pelo menos eu tremia de frio, ia ser um dia cinzento a adivinhar o Outono. Dirigi-me aos vestuários que se encontravam no outro estremo do Hospital. Como ainda não tinha a farda do hospital, vesti a farda de aluna, uma bata branca de apertar à frente, não muito diferente da farda da instituição que agora me acolhia. Os sapatos eram também os do curso (foram caríssimos e foram bem aproveitados), retirei os brincos, prendi o cabelo.

            Faltavam 15 minutos para a passagem de turno e quando saí dos vestuários, chegavam outras colegas de todos os serviços para fazer o mesmo ritual que eu tinha terminado. Devagar caminhei pelo longo corredor e lembro o som dos passos no chão frio de mármore. Ao longe o choro de um bebé fez-me estremecer.

Aos poucos ía me apercebendo de outros sons que me iriam acompanhar durante muitos anos.

Respirei fundo e numa oração pedi a Deus que me ajudasse a não errar.

Cruzei-me com algumas pessoas que me cumprimentaram com simpatia, e eu senti que já pertencia àquela família.

 Desci os degraus que me conduziram ao serviço de Medicina do Hospital Pediátrico.

Abri as portas e entrei na sala de enfermagem. As colegas que estavam a terminar o seu turno ainda estavam ocupadas para terminar os cuidados. Entrei e sentei-me no topo do sofá, encostada á parede, o meu bom dia não sei se o libertei ou se ficou alojado na garganta.

Assisti à passagem de turno e anotei tudo o que pude…

A Enfermeira Chefe apresentou-me à equipa e depois mostrou-me o serviço. Um serviço antigo, paredes rosa escuro, a necessitar de uma pintura nova. Cada quarto tinha 3 caminhas de ferro, já muito lascadas, com grades altas. À frente das camas uma bancada com um lavatório, um colchão e uma banheirinha. As mães sentadas em cadeiras, umas a olhar para os filhos, outras a tentar acalmá-los, outras a brincar com eles.

 Foi-me resumindo a história de cada criança.

Os sons…os oxímetros…os perfusores…os gritos…o choro… As patologias eram muito mais complexas que tudo o que eu tinha vivenciado em estágio. Entrei na sala de tratamentos onde puncionavam um bebé, achei tudo muito doloroso, muito traumático, As enfermeiras com o rosto fechado, concentradas nas tarefas, nos cuidados…

Enretanto fui apresentada à minha mentora, foi a enfermeira que fez a minha integração no serviço. É um ser de muita luz. As primeiras gargalhadas que ouvi ali foram dela. A Enf. Graça conquistou-me pela simplicidade em que transformava tudo o que de simples não tem nada.

Saí daquele primeiro dia com os ouvidos surdos pela imensidão de sons que era preciso identificar e agir de acordo com o esperado e o coração triste por ter visto um local com tantas dores e sofrimento…

Caminhei até ao vestuário como um fantasma…sentia-me exausta…Troquei cada peça de roupa mas no fim olhei para dentro do cacifo e procurei onde tinha ficado a minha alma…Saí do Hospital e vagueei pela rua até o transporte que me levava a casa, lá dentro sentei-me num lugar vago e pela vidro da janela a paisagem ia mudando, mas eu só revia mentalmente o rosto de cada criança… e os gritos…saí finalmente junto a minha casa ao portão estava a minha mãe também a chegar a casa e com um beijo apressado perguntou:

- Então como correu o primeiro dia?

Olhei para ela, sorri a custo e murmurei:

 - Correi bem, amanhã já não vou, mas correu bem.

Voltei todos os dias que me estavam destinados, durante sete anos! E três anos após ainda sonhava que voltava.

Ainda hoje, o que vivi naquele serviço, transformou-me no ser humano que hoje sou. Cresci, sofri e conheci o Amor maior de todos. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Sou Enfermeira… E Agora?

Em primeiro lugar quero esclarecer-vos de um aspecto importante deste curso, é um curso muito exigente e muito duro. Exigente a nível fisico, psicológico. Os dias mais intensos, não são os das provas escritas de conteudo teórico-prático, como podiam imaginar. Esses dias com mais horas sem dormir e uns litros de café ultrapassam-se…mas o verdadeiro desafio é quando se dá o salto para a prática e temos de desenvolver e demonstrar conhecimentos perante…perante o utente e família! O nosso orientador pode e deve ser exigente, as perguntas podem aparecer da forma mais inesperada como se tivessemos o manual debaixo do braço, e se não sabemos hoje vamos a correr preparar as respostas para casa para no dia seguinte podermos demonstrar saber…muitas vezes não voltam a perguntar, mas tu estás preparado para a vida…daquele estágio! Mas depois veêm as questões do utente, que nem se apercebe que és aluna e pede a tua opinião, pede respostas, pede ajuda… e aí? Aí derompante o tapete desliza debaixo dos teus pés e a sola antiderrapante da teoria esvai-se e as palavras prendem na garganta e saiem com mil cuidados para não delidudires…para seres profissional…para não errares. Porque tu sabes…tu não podes errar, nunca com o utente… Aos 23 anos,terminei o curso de enfermeira em 1997, num tempo em que não tinhamos dificuldade em encontrar emprego. Pouco tempo depois estava a dar entrada no Hospital para ser acolhida numa nova família. Ser enfermeira… tinha uma ideia fruto dos estágios que desenvolvemos ao longo do curso. Dos campos de ensino cliníco (estagios) que mais gostei foram o de cuidados de saúde comunitária e o de pediatria. Os cuidados de saúde primários fascinam-me pela capacidade de cuidar de toda a comunidade desde os primeiros dias de vida até aos últimos no mesmo espaço. Admirava a quantidade de saber destes profissionais de saúde. Agradava-me a ideia de proteger e cuidar as pessoas mais vulneráveis no seu ambiente familiar, num espaço muitas vezes improvisado mas com toda a humanidade e respeito pelo que o outro coloca ao nosso dispor com desvelo. As pessoas ao receber o profissional de saúde no seu lar baixam as defesas e mostram-se em toda a sua fragilidade e isso merece todo o respeito do mundo. Sempre gostei de ler e escrever e sempre senti necessidade de analisar à lupa o que via e sentia, talves por isso, nestes dois estágios eu tive a oportunidade de conhecer as histórias de vida além da doença. Tinha muito clara a noção da responsabilidade de ser enfermeira, o medo de errar era fisico, os tremores nas pernas, as mãos geladas, o coração a mil e o entusiasmo… lembro-me de ter um bloco onde tal como nos estágios, eu anotava tudo o que pensava em alguma altura me iria ser útil. Tinha a plena noção que a responsabilidade de ter a vida de outra pessoa nas nossas mãos era imensa. Não só a vida, mas a confiança das famílias que nos confiavam os seus. Na reunião com a enfermeira directora, todas muito nervosas…algumas já tinham ideias claras sobre o seu destino em termos de seviço, outras como eu…não fazia a minima ideia. Deixei todas escolherem e no final a enfermeira Eugénia disse: “- Vai para o serviço de Medicina, assim fica capaz de trabalhar em qualquer lugar.” Estas palavras ecoaram em fim todos estes anos e sempre que as digo fazem o mesmo sentido, no entanto não prepara para acomodar, dobrar e arrumar cada história numa gaveta e fechar. Por vezes, um acontecimento faz-me desarrumar o armário das gavetas e as emoções saiem de cada uma como se tivessem vida própria.  

Começar a exercer enfermagem, no serviço de Medicina de um Hospital Pediátrico,foi o maior desafio da minha vida. Aos 23 anos, por muita mat...